A ciência está cada vez mais próxima de transformar as vacinas contra o câncer em realidade. Diversos estudos no mundo investigam imunizantes capazes de “ensinar” o sistema imunológico a reconhecer e destruir células tumorais — e os resultados, embora ainda iniciais, já são animadores.
Segundo o oncologista Breno Jeha Araújo, da Oncoclínicas, a lógica dessas vacinas é apresentar ao organismo moléculas específicas do tumor, conhecidas como neoantígenos. “Assim, as células de defesa, especialmente os linfócitos T, passam a identificar e eliminar as células malignas, além de criar memória imunológica que ajuda a prevenir a recorrência da doença”, explica.
Prevenção e tratamento
Existem dois grandes caminhos de desenvolvimento:
Vacinas terapêuticas: aplicadas em pacientes já diagnosticados, para tratar tumores existentes e impedir que retornem.
Vacinas preventivas: já usadas com sucesso em alguns casos, como a do HPV (prevenção do câncer de colo de útero) e a da hepatite B (prevenção do câncer de fígado).
Alguns imunizantes também estão sendo testados junto com imunoterapia para aumentar a eficácia dos tratamentos e superar resistências dos tumores.
Destaques da pesquisa mundial
Nos últimos anos, diferentes laboratórios e centros de pesquisa apresentaram resultados relevantes:
Vacina universal experimental
Publicada na Nature Biomedical Engineering em agosto de 2025, gerou forte resposta antitumoral em camundongos quando combinada com imunoterapia, abrindo perspectivas para vários tipos de câncer resistentes.Câncer renal avançado
Em fevereiro de 2025, estudo na Nature mostrou que nove pacientes tratados após cirurgia tiveram resposta imune anticâncer bem-sucedida, reduzindo risco de recidiva.Vacinas russas
Anunciadas em dezembro de 2024, incluem uma versão personalizada com tecnologia mRNA e outra chamada Enteromix, baseada em vírus não patogênicos que destroem células malignas. A previsão é distribuição gratuita ainda em 2025.Vacina bacteriana
Desenvolvida pela Universidade Columbia (EUA) em 2024, utiliza bactérias probióticas para treinar o sistema imunológico a atacar tumores primários e metástases, prevenindo recidivas.Câncer de intestino (Reino Unido)
Testes iniciados pelo NHS em junho de 2024 com vacinas mRNA personalizadas, adaptadas às mutações de cada paciente. O primeiro voluntário foi tratado em Birmingham.Câncer de pele (melanoma avançado)
Parceria entre Moderna e MSD, a vacina mRNA-4157 (V940) está em fase 3. Nos testes de fase 2, combinada ao Keytruda, reduziu em 44% o risco de recidiva ou morte em três anos.Câncer de fígado
Estudo apresentado na Associação Americana de Pesquisa do Câncer e publicado na Nature Medicine mostrou que a combinação de vacina personalizada com imunoterapia dobrou a taxa de resposta em casos de difícil tratamento.O que vem pela frente
Para Araújo, o próximo passo é ampliar os ensaios clínicos em humanos, especialmente unindo vacinas mRNA a terapias já consolidadas. Mas ele alerta: “Será preciso garantir que, uma vez comprovadas a eficácia e a segurança, essas vacinas sejam acessíveis à população de forma rápida e justa”.
Com a velocidade dos avanços atuais, especialistas acreditam que estamos cada vez mais perto de um cenário em que prevenir e tratar o câncer com vacinas seja não apenas possível, mas parte do cuidado oncológico de rotina.
Fonte: CNN
